top of page

Tirar as amígdalas e a adenoide baixa a imunidade?

Foto do escritor: Dra Livia Arruda
Dra Livia Arruda
há 4 dias
5 min de leitura
Tirar as amígdalas e a adenoide baixa a imunidade

Essa é uma dúvida muito comum entre pais que recebem indicação de cirurgia para os filhos.

As amígdalas e a adenoide realmente fazem parte do sistema imunológico. Elas participam do contato inicial do organismo com vírus, bactérias e outros agentes que entram pelas vias respiratórias.

Mas isso não significa que sejam indispensáveis para que a imunidade funcione normalmente.

A principal questão é entender se a retirada dessas estruturas pode causar alguma deficiência imunológica ou deixar a criança mais suscetível a infecções.


Qual é a função das amígdalas e da adenoide?


As amígdalas e a adenoide fazem parte do chamado anel linfático de Waldeyer, um conjunto de tecidos linfoides localizado na região da garganta e da nasofaringe.

Elas ajudam a reconhecer antígenos e participam da ativação de células de defesa e da produção de anticorpos, especialmente durante a infância.

No entanto, o sistema imunológico é muito mais amplo. Mesmo depois da retirada dessas estruturas, permanecem ativos diversos outros tecidos linfoides, linfonodos, baço, medula óssea e mecanismos de defesa das mucosas.

Por isso, retirar amígdalas e adenoide não significa deixar a criança “sem defesa”.


O que os estudos mostram sobre a imunidade?


A maior parte da literatura científica disponível é tranquilizadora.

Uma revisão sistemática e metanálise que reuniu 35 estudos e quase 2.000 pacientes concluiu que a tonsilectomia não provoca efeito imunológico negativo clinicamente significativo.

Outra revisão abrangente, publicada em 2024, avaliou amigdalectomia, adenoidectomia e adenotonsilectomia e também não encontrou evidência consistente de comprometimento relevante da imunidade celular ou humoral.

Alguns estudos mostram pequenas mudanças em níveis de imunoglobulinas ou em determinadas populações de células de defesa após a cirurgia. Na maioria dos casos, porém, essas alterações permanecem dentro da faixa normal e não se traduzem em imunodeficiência clínica.

Em outras palavras: uma alteração em um exame não significa, necessariamente, uma queda real da imunidade.


A criança fica mais doente depois da cirurgia?


De forma geral, não há evidência consistente de que a retirada das amígdalas ou da adenoide faça a criança passar a ter infecções recorrentes por “estar com a imunidade baixa”.

Em um estudo randomizado com crianças submetidas à adenotonsilectomia, algumas imunoglobulinas apresentaram redução após a cirurgia, mas isso não se associou a maior número de infecções respiratórias.

Além disso, em crianças com amigdalites de repetição e indicação adequada, a cirurgia pode reduzir a frequência de episódios de infecção de garganta.

Portanto, o efeito clínico depende muito da situação inicial da criança e do motivo pelo qual a cirurgia está sendo considerada.


E os estudos que falam em riscos a longo prazo?


Alguns grandes estudos observacionais identificaram associação entre tonsilectomia ou adenoidectomia na infância e maior frequência posterior de determinadas doenças respiratórias, infecciosas ou imunológicas.

Esses dados merecem atenção, mas precisam ser interpretados com cuidado.

Crianças que chegam à cirurgia geralmente já apresentam características diferentes daquelas que nunca precisaram operar, como maior frequência de infecções, hipertrofia adenotonsilar, alterações respiratórias ou predisposição alérgica.

Por isso, esses estudos não conseguem provar que a cirurgia seja a causa direta das doenças observadas muitos anos depois.

O que a literatura permite dizer com maior segurança é que não há evidência de que a cirurgia cause imunodeficiência clinicamente relevante.


Toda criança com amígdalas ou adenoide aumentadas deve operar?


Não.

O tamanho das amígdalas ou da adenoide, isoladamente, não define a necessidade de cirurgia.

A decisão deve levar em conta os sintomas e as repercussões clínicas.

A cirurgia pode ser considerada em situações como:

  • apneia ou dificuldade respiratória durante o sono;

  • ronco frequente com repercussões clínicas;

  • obstrução nasal importante;

  • respiração bucal persistente;

  • amigdalites recorrentes;

  • dificuldade para se alimentar;

  • alterações de crescimento;

  • prejuízo importante da qualidade do sono e da qualidade de vida.

Em muitos casos, o melhor caminho pode ser acompanhar ou tratar clinicamente.

Por isso, a pergunta mais importante não é “as amígdalas estão grandes?”, mas sim:

“Essas amígdalas ou essa adenoide estão causando um problema relevante para esta criança?”


Quando vale procurar um otorrinolaringologista?


Alguns sinais merecem avaliação, especialmente quando são frequentes:

  • ronco;

  • respiração pela boca;

  • sono agitado;

  • pausas respiratórias durante o sono;

  • amigdalites de repetição;

  • dificuldade para respirar pelo nariz;

  • dificuldade para comer ou ganhar peso;

  • diagnóstico prévio de amígdalas ou adenoide muito aumentadas.

A consulta ajuda a definir se existe indicação de cirurgia, se é necessário algum exame complementar ou se o melhor é acompanhar.

Dependendo do caso, podem ser indicados exames como endoscopia nasal ou polissonografia.


Afinal, é preciso ter medo de prejudicar a imunidade?


Não há evidência científica de que a retirada das amígdalas e da adenoide, quando bem indicada, provoque imunodeficiência clinicamente significativa.

Isso não significa que a cirurgia deva ser feita sem critério.

Como qualquer procedimento, ela possui riscos e precisa ter uma indicação individualizada.

Quando existe um problema importante, como apneia do sono, obstrução respiratória relevante ou amigdalites recorrentes, o benefício da cirurgia pode superar os riscos.

Já em quadros leves ou duvidosos, muitas vezes é possível observar a evolução antes de decidir.

O mais importante é avaliar cada criança de forma individual.


Perguntas frequentes


Tirar as amígdalas enfraquece a imunidade? Os estudos não demonstram que a amigdalectomia cause imunodeficiência clinicamente relevante. Pequenas alterações laboratoriais podem ocorrer, mas geralmente não têm repercussão clínica importante.

A criança fica mais gripada depois da cirurgia? Não há evidência consistente de aumento de infecções respiratórias simplesmente pela retirada das amígdalas ou da adenoide.

A adenoide pode voltar a crescer? Pode haver algum crescimento de tecido adenoideano residual, especialmente em crianças operadas muito pequenas. Isso não significa necessariamente retorno dos sintomas.

Ronco infantil é normal? Ronco ocasional durante uma gripe pode acontecer. Ronco frequente, principalmente associado a respiração bucal, sono agitado ou pausas respiratórias, merece investigação.

Toda criança com amígdalas grandes precisa operar? Não. O tamanho é apenas um dos fatores avaliados. Os sintomas e as repercussões clínicas são mais importantes para definir a conduta.

Qual médico avalia amígdalas e adenoide? O especialista indicado é o otorrinolaringologista, que pode avaliar as vias aéreas, o sono, as infecções recorrentes e discutir as opções de tratamento.


Referências científicas

Bitar MA, Dowli A, Mourad M. The effect of tonsillectomy on the immune system: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Pediatric Otorhinolaryngology. 2015. Revisão sistemática e metanálise de 35 estudos, com 1.997 pacientes, sem evidência de efeito imunológico negativo clinicamente significativo após tonsilectomia.

Liu Y et al. Effects of tonsillectomy and adenoidectomy on the immune system. Heliyon. 2024. Revisão sobre os efeitos da tonsilectomia, adenoidectomia e adenotonsilectomia na imunidade celular, humoral e em desfechos clínicos.

van den Akker EH et al. Long-term effects of pediatric adenotonsillectomy on serum immunoglobulin levels: results of a randomized controlled trial. Estudo randomizado que não encontrou relação entre níveis de imunoglobulinas e frequência de infecções respiratórias após a cirurgia.

Mitchell RB et al. Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery. 2019. Diretriz sobre indicação de tonsilectomia em crianças com infecções recorrentes e distúrbios respiratórios do sono.

Paradise JL et al. Efficacy of tonsillectomy for recurrent throat infection in severely affected children. New England Journal of Medicine. Estudo clássico demonstrando redução de infecções em crianças criteriosamente selecionadas com amigdalites recorrentes graves.



Comentários


bottom of page